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Eles são diferentes. E adoram isso

Postado por Daniel Pena em sábado, 25 de setembro de 2010 | 06:55

Comentário de Daniel Alves Pena

É a coisa ta feia, não precisa mais conversão (voltar do caminho anterior) é muito mais fácil adaptar a igreja aos moldes deste mundo.
Com tristeza.

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Revista Veja on-line em 10 de setembro de 2008

Jovens evangélicos não bebem, não fumam, não têm sexo fora do casamento. Mas a rigidez diminuiu, eles se sentem melhores que os outros e acreditam num futuro de prosperidade.



Juliana Linhares


Julio Vilela

CRENTES NA BALADA

Rodrigues (de óculos) com amigos no Brother Simion, point evangélico: beber, não, fumar, também não; beijar, sim, mas sem avançar o sinal

Eles vão a baladas, namoram, surfam e usam roupas da moda. A diferença entre os evangélicos e a maioria dos outros jovens é que suas festas são sem álcool, o namoro é sem sexo e as roupas, sem exageros – nada de saias pelos pés e cabelos pela cintura, mas decotes e comprimentos moderados. A maneira brasileira de ser evangélico ajuda a explicar os números impressionantes: 17% dos jovens entre 15 e 29 anos se identificam
como seguidores de alguma das confissões evangélicas. Basta entrar em qualquer
culto pentecostal para constatar a vitalidade de sua presença: praticamente a
metade da igreja é sempre composta de jovens. Orgulhosos de seguir uma doutrina
aparentemente tão contrária a tudo o que a juventude aprecia em nome de
valores espirituais, também assumem a busca da realização material ("Nós
merecemos o melhor" é uma declaração constante). Em algumas igrejas
específicas, a promessa de redenção é um atrativo poderoso. "A maioria
vem aqui porque tem angústias de várias naturezas, entre elas o vício em
drogas. Mas uma vida desregrada e um certo desconforto com o mundo, que muitas
vezes nem eles mesmos sabem explicar, também trazem muitos jovens para a
igreja", enumera Rodrigo Ribeiro Rodrigues, membro há três anos e meio da
Bola de Neve Church, igreja conhecida em São Paulo pela presença absoluta de
jovens. Rodrigo trabalha como assessor de imprensa da Bola de Neve – sim, a
igreja tem assessor. Além dos cultos, ele freqüenta o inusitado pub gospel
Brother Simion, ponto de encontro de jovens crentes em São Paulo. O Brother
Simion é isso mesmo: pub, ou seja, lugar meio escurinho onde jovens se
encontram, e gospel, o que quer dizer que lá não se pode fumar nem beber.
"O que mais sai aqui é açaí", diz o Brother Simion em pessoa, o
dono do estabelecimento. E que fique claro aos casais: beijar, pode; avançar o
sinal, não.

Fotos Lailson Santos

ORAÇÃO NA AVENIDA

Vanessa, que ora aos domingos na Paulista: "Fiz até um curso na igreja para aprender a comandar situações e falar em público"



Com o público jovem como alvo específico, as igrejas evangélicas organizam
cultos e reuniões freqüentes, estimulam a integração, oferecem emprego e
atividades esportivas, em ambiente de violência zero – um diferencial
tremendo em locais atormentados por altíssimos índices de criminalidade.
Praticamente garantem um futuro de prosperidade e um casamento estável. A quem
já escorregou, asseguram a oportunidade de passar uma borracha no passado e ser
acolhido como uma nova pessoa, querida pela comunidade. A maioria das religiões
parte dos mesmíssimos princípios, mas as igrejas evangélicas aperfeiçoaram
uma forma simples e envolvente de apregoar suas vantagens. O jovem vai,
empolga-se e julga que não beber e não transar fora do casamento são
requisitos razoáveis para um futuro tão promissor. "As pessoas criam esse
estereótipo de que ser cristão é ser chato. Não é isso. A gente pode tudo,
tem a mesma liberdade que qualquer um. Só que fazemos escolhas. E, na minha
opinião, fazemos as melhores", diz Rafael David, 21 anos, da mesma Bola de
Neve. A igreja foi fundada em 2000 pelo surfista Rinaldo de Seixas Pereira, o
pastor Rina, de 36 anos. Uma vez por ano, dezenas de ônibus de seguidores da
Bola de Neve rumam para Florianópolis para participar de torneios de surfe e
skate. Na praia, os meninos ouvem reggae com letra religiosa e as meninas usam
biquínis comportados.


Os padrões da Bola de Neve são mais liberais, mas o excesso de modéstia constitui hoje exceção. "Antes éramos conhecidas como jovens velhas, por causa da saia e do cabelão comprido. Mas eu me visto como qualquer outra menina. Claro que não uso decote nem minissaia, mas adoro jeans e blusinhas de alça. O importante é estar vestida com decência.
Somos reconhecidas por nossa sobriedade", diz Janara Alves, advogada de 26 anos que freqüenta a Assembléia de Deus. Não fazer sexo com a namorada é difícil? "Ficar sem sexo dói, é um sacrifício, mas no final da minha busca eu vou ter um prêmio. O ápice da minha procura vai ser com uma pessoa que eu conheço e com quem tenho uma aliança verdadeira. Estou me guardando para o melhor", acredita Jeferson Ricardo Silva, de 19 anos, estudante de moda e membro da igreja Sara Nossa Terra há um ano. Nessa antecipação de dias melhores, poucas coisas fazem tanto sentido quanto a valorização do progresso material. "Todas as segundas-feiras temos uma palestra na igreja
chamada Congresso Empresarial. Nela aprendemos que prosperar financeiramente não é sujo. Se o casal não tem dinheiro, ele vai brigar por causa disso. O mesmo acontece na vida como um todo. Deus nos ensina a ter o melhor, a lutar para melhorar de vida", empolga-se Nathalia Gomes, 20 anos, fiel há seis anos da Igreja Universal do Reino de Deus, que usa cabelo ruivo espetado, veste camiseta com ombro de fora e não dispensa seu par de coturnos.

À ESPERA DO PRÊMIO

Jeferson Silva, sobre o namoro sem sexo: "É um sacrifício, mas espero para ter uma aliança verdadeira. Estou me guardando para o melhor"

A maior igreja pentecostal, o nome religiosamente correto dessa vertente do protestantismo, do Brasil é a Assembléia de Deus, com cerca de 100 000 templos e 15 milhões de fiéis. Em segundo lugar vem a discreta Congregação Cristã no Brasil, que não pede dízimo, proíbe participação em instituições políticas e veta a divulgação por meios de
comunicação de massa. Entre as neopentecostais, o pódio é ocupado pela conhecida Universal do Reino de Deus, com 5.146 templos e 8 milhões de membros.
De igrejas como a Universal partiu a bem-sucedida flexibilização de regras; as
tradicionais, meio a contragosto, aderiram. "De um lado, as igrejas mais
tradicionais deixaram de reprimir o ato de ver TV, de ir à praia, de usar
maquiagem, cabelo curto e roupas da moda. De outro, as pentecostais passaram a
fazer de seus cultos verdadeiros shows de música e dança, proporcionando-lhes
um caráter de entretenimento. Isso atraiu muitos jovens", explica Nicanor
Lopes, professor de teologia da Universidade Metodista de São Paulo.


Segundo pesquisa da Fundação Getulio Vargas,
cerca de 30% dos fiéis das igrejas evangélicas estão nas classes C e D, em
que a teologia da ascensão material encontra terreno propício. "A igreja
nos ensina a ter o melhor. Aqui a gente aprende que ter prosperidade é dom de
Deus. Se somos pessoas boas, nossa fé vai nos dar condições de, por exemplo,
viajar, fazer cruzeiros e ficar em hotéis cinco-estrelas", diz Daniela
Soares, 32 anos, fiel da Universal há dezoito. Empresária adepta do terninho,
salto alto e maquiagem, ela coordena um grupo de jovens em atividades como um
desfile de vestidos de noiva em que, microfone em punho, grita: "Quem quer
se casar neste ano?". Diante do mar de mãos erguidas, arremata: "Então,
vai escolhendo o vestido, que ele pode ser seu". Segundo levantamento feito
pelo Instituto de Estudos da Religião (Iser) com 800 cariocas entre 15 e 24
anos, os evangélicos são os que mais se reúnem, seja em cultos, seja em
outras atividades. Mais de 52% deles disseram ir duas vezes ou mais por semana
à igreja. "Aqui, eu me sinto em casa. Posso ser eu mesmo. No primeiro dia
em que vim à igreja, o pastor me chamou no altar, me elogiou muito e, apontando
para a multidão lá embaixo, me disse: ‘Veja a nova família que você acaba
de ganhar’. Eu me senti muito acolhido", recorda Jeferson, o estudante de
moda.

DINHEIRO NÃO É PECADO

Nathalia: "Na igreja aprendemos que prosperar não é sujo. Deus nos ensina a ter o melhor"

A política de acolhimento tem resultados evidentes. "Procurei uma igreja católica, mas não achei nenhuma aberta. A primeira que apareceu foi uma Renascer", recorda Carolina Chiarlitti Bassi, 25 anos, estudante de administração e ex-dançarina de axé – "tempo de top e shortinho, drogas, noitadas". Hoje ela dá aulas de dança na própria igreja e tem um olhar crítico em relação ao passado: "Sexo, cerveja, cigarro, a gente sabe que tudo isso é passageiro, sem compromisso, e que não vai levar a futuro algum. Fumar e beber pode causar dependência. Transando com vários não vou fazer uma família".

O fervor dos jovens convertidos pode incomodar e causar desconforto. "Sofremos preconceito o tempo inteiro. Meus próprios amigos criticam: ‘Vai lá na igreja dar dinheiro ao pastor’", afirma Thiago Vignoli, 24 anos, estudante de administração e fiel da Sara Nossa Terra. Como é comum em grupos de alto teor de crença religiosa, a eventual discriminação vira motivo de orgulho. "Quando você começa a ter um pouco mais de convicção naquilo que segue, ser discriminado é tudo o que você quer. Eu sempre quero ser discriminado, para ter a oportunidade de contar meu testemunho", diz Phillip Silva Guimarães, 23 anos, gerente de contas em um banco e membro da Renascer. As igrejas também propiciam métodos para enfrentar constrangimentos. Vanessa de Almeida, 26 anos, fiel da Sara Nossa Terra, aos domingos costuma ir com amigos fazer preces em voz alta em plena Avenida Paulista. "As pessoas passam, nos vêem orando e se emocionam. É um trabalho maravilhoso. Eu e meus colegas fizemos a Escola de Vencedores, da igreja, para aprender a falar em público e agir em situações como essas." É difícil imaginar prova maior de fé do que esse mico total, como diriam jovens menos convictos.
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