Adolf Pohl - CARTA AOS GÁLATAS - Daniel Alves Pena

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Adolf Pohl - CARTA AOS GÁLATAS

Postado por Daniel Pena em segunda-feira, 16 de agosto de 2010 | 04:40

Os Comentarios Esperanca conquistarao leitores  que buscam explicacoes de textos em geral e tambem para os mais dificeis. O proposito que motiva o comentario e esclarecer as preciosidades ocultas nas paginas do texto sagrado. Os autores dos Comentarios Esperanca oferecem um sem-numero de conhecimentos que revelam o pensamento dos autores inspirados.

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CARTA AOS GÁLATAS

COMENTÁRIO ESPERANÇA

autor

Adolf Pohl

Editora Evangélica Esperança

Título do original em alemão:     “Wuppertaler Studienbibel – Ergänzungsfolge”Der Brief des Paulus an die Galater

Copyright © 1995 R. Brockhaus Verlag, Wuppertal

Coordenação editorial

Walter Feckinghaus

Tradução

Werner Fuchs

Revisão de texto

Roland Körber
Betina Körber Silva


Capa

Luciana Marinho

Editoração eletrônica

Mánoel A. Feckinghaus

Impressão e acabamento

Imprensa da Fé

ISBN     85-86249-33-5     Brochura

ISBN     85-86249-32-7     Capa dura

O texto bíblico utilizado, com a devida autorização, é a versão Almeida Revista e Atualizada (ra) 2ª edição, da Sociedade Bíblica do Brasil, São Paulo, 1997.

1ª edição em português: 1999

Copyright ©1999, Editora Evangélica Esperança

É proibida a reprodução total ou parcial sem permissão escrita dos editores.

Publicado no Brasil com a devida autorização e com todos os direitos reservados pela:

Editora Evangélica Esperança

Rua Aviador Vicente Wolski, 353

82510-420 Curitiba-PR

Sumário

ORIENTAÇÕES PARA O USUÁRIO DA SÉRIE DE COMENTÁRIOS

ÍNDICE DE ABREVIATURAS

PREFÁCIO DO AUTOR

QUESTÕES INTRODUTÓRIAS

1.     Como se caracteriza o texto transmitido?

2.     Quem era o autor?

3.     Quem eram os destinatários?

4.     Qual foi o motivo da carta?

5.     Quando e onde foi escrita a carta?

6.     Como a carta deve ser enquadrada teologicamente?

COMENTÁRIO

I. INTRODUÇÃO, 1.1-12

1.     O cabeçalho da carta (Prefácio), 1.1-5

2.     Acusação de apostasia e anúncio de juízo para os sedutores, 1.6-9

3.     Defesa contra a difamação e tese contrária, 1.10-12

II. A PRIMEIRA SEÇÃO DA CARTA


O evangelho livre da lei pregado por Paulo tem origem no próprio Deus e foi reconhecido pela igreja primitiva em Jerusalém, 1.13–2.21

1.     Antes de sua vocação Paulo era totalmente avesso a influências cristãs, 1.13,14

2.     A vocação de Paulo aconteceu diretamente por Deus e sem instrução subseqüente por pessoas, 1.15-17

3.     Em anos posteriores estabeleceu-se um relacionamento fraterno com Pedro, Tiago e as igrejas da Judéia, 1.18-24

4.     Em vista de ataques judaístas Paulo obteve reconhecimento oficial da igreja originária de Jerusalém para a sua missão livre da lei entre gentios, 2.1-10

5.     Publicamente Paulo defendeu perante a igreja de Antioquia de forma inabalável a verdade do evangelho quando até Pedro vacilou, 2.11-21

III. A SEGUNDA SEÇÃO DA CARTA


O evangelho livre da lei pregado por Paulo coincide com a Escritura, 3.1–5.12

UNIDADE 1: Não a lei, mas a morte de Cristo trouxe a bênção prometida, 3.1-14

1.     Que diz a experiência própria dos gálatas?, 3.1-5

2.     Conforme a Escritura são os que crêem que são filhos de Abraão e possuem a sua bênção, 3.6-9

3.     A lei coloca o ser humano sob a maldição porque ela não faz parte da ordem da fé, 3.10-12

4.     Porém por sua morte Cristo redimiu judeus e gentios da maldição da lei, para que na fé recebessem a bênção de Abraão, a saber, o Espírito, 3.13,14

UNIDADE 2: “Qual, então, a razão de ser da lei?”, 3.15–4.7

5.     Já pelas condições históricas a lei não é capaz de prejudicar a promessa a Abraão nem sequer de atingi-la, 3.15-18

6.     A verdadeira incumbência da lei reside em impelir o ser humano pecador para a profundeza de sua existência e conservá-lo na condição de acusado, 3.19-22

7.     Primeira figura: A lei como prisão, 3.23

8.     Segunda figura: A lei como vigilante, 3.24-29

9.     Terceira figura: A lei como tutora, 4.1-7

UNIDADE 3: O significado, decorrente para os gálatas, da subordinação à lei, 4.8–5.12

10.     Comprometer-se com a lei de Moisés significaria um retorno insensato à servidão sob os elementos cósmicos, 4.8-11

11.     Voltar-se aos judaístas seria um afastamento incompreensível da imitação apostólica, 4.12-20

12.     Seria tolo querer submeter-se à lei sem também lhe dar ouvidos nos pontos em que ela própria aponta para além de si, 4.21-31

13.     Se os gálatas realizassem a circuncisão como planejaram, perderiam sua posição na liberdade de Deus e na comunhão com Cristo, 5.1-6

14.     Os sedutores com seu ensino destrutivo e suas difamações absurdas estão destinados ao juízo divino, 5.7-12

IV. A TERCEIRA SEÇÃO DA CARTA


O evangelho livre da lei pregado por Paulo é comprovado por sua fertilidade ética, 5.13–6.10

1.     Livres da escravidão da lei, mas sem abusar de sua liberdade, cristãos prestam a seu semelhante o serviço de escravo do amor, cumprindo assim a lei, 5.13-15

2.     A exortação para andar no amor é exortação para andar no Espírito, o qual, no campo de tensão do cotidiano, mantém a vitória contra os desejos carnais, 5.16-26

3.     Como a igreja age guiada pelo Espírito no caso de uma falha nas próprias fileiras, cumprindo a lei de Cristo, 6.1-5

4.     Como a igreja preserva a comunhão com seus mestres também em dias críticos e semeia de todas as maneiras sobre [ra: “para”] o Espírito, para colher assim a vida eterna, 6.6-10

V. O ENCERRAMENTO DA CARTA


(Pós-escrito),6.11-18

ÍNDICE DE LITERATURA

COMENTÁRIOS EM PORTUGUÊS

ORIENTAÇÕES
PARA O USUÁRIO DA SÉRIE DE COMENTÁRIOS


Com referência ao texto bíblico:

O texto de Gálatas está impresso em negrito. Repetições do trecho que está sendo tratado também estão impressas em negrito. O itálico só foi usado para esclarecer dando ênfase.

Com referência aos textos paralelos:

A citação abundante de textos bíblicos paralelos é intencional. Para o seu registro foi reservada uma coluna à margem.

Com referência aos manuscritos:

Para as variantes mais importantes do texto, geralmente identificadas nas notas,foram usados os sinais abaixo, que carecem de explicação:

TM     O texto hebraico do Antigo Testamento (o assim-chamado “Texto Massorético”). A transmissão exata do texto do Antigo Testamento era muito importante para os estudiosos judaicos. A partir do século ii ela tornou-se uma ciência específica nas assim-chamadas “escolas massoréticas” (massora = transmissão). Originalmente o texto hebraico consistia só de consoantes; a partir do século vi os massoretas acrescentaram sinais vocálicos na forma de pontos e traços debaixo da palavra.

Manuscritos importantes do texto massorético:

Manuscrito:     redigido em:     pela escola de:

Códice do Cairo (c)     895     Moisés ben Asher

Códice da sinagoga de Aleppo depois de 900     Moisés ben Asher

(provavelmente destruído por um incêndio)

Códice de São Petersburgo 1008     Moisés ben Asher

Códice nº 3 de Erfurt século xi     Ben Naftali

Códice de Reuchlin 1105     Ben Naftali

Qumran     Os textos de Qumran. Os manuscritos encontrados em Qumran, em sua maioria, datam de antes de Cristo, portanto, são mais ou menos 1.000 anos mais antigos que os mencionados acima. Não existem entre eles textos completos do . Manuscritos importantes são:

•     O texto de Isaías

•     O comentário de Habacuque

Sam     O Pentateuco samaritano. Os samaritanos preservaram os cinco livros da lei, em hebraico antigo. Seus manuscritos remontam a um texto muito antigo.

Targum     A tradução oral do texto hebraico da Bíblia para o aramaico, no culto na sinagoga (dado que muitos judeus já não entendiam mais hebraico), levou no século iii ao registro escrito no assim-chamado Targum (= tradução). Estas traduções são, muitas vezes, bastante livres e precisam ser usadas com cuidado.

LXX     A tradução mais antiga do at para o grego é chamada de “Septuaginta” ( = setenta), por causa da história tradicional da sua origem. Diz a história que ela foi traduzida por 72 estudiosos judeus por ordem do rei Ptolomeu Filadelfo, em 200 a.C., em Alexandria. A lxx é uma coletânea de traduções. Os trechos mais antigos, que incluem o Pentateuco, datam do século iii a.C., provavelmente do Egito. Como esta tradução remonta a um texto hebraico anterior ao dos massoretas, ela é um auxílio importante para todos os trabalhos no texto do at.

Outras     Ocasionalmente recorre-se a outras traduções do at. Estas têm menos valor para a pesquisa de texto, por serem ou traduções do grego (provavelmente da lxx), ou pelo menos fortemente influenciadas por ela (o que é o caso da Vulgata):

•     Latina antiga     por volta do ano 150

•     Vulgata (tradução latina de Jerônimo)     a partir do ano 390

•     Copta     séculos iii-iv

•     Etíope     século iv



ÍNDICE DE ABREVIATURAS

I.                    Abreviaturas gerais

II.

at     Antigo Testamento

nt     Novo Testamento

gr     Grego

hbr     Hebraico

km     Quilômetros

lat     Latim

opr     Observações preliminares

par     Texto paralelo

qi     Questões introdutórias

tm     Texto massorético

lxx     Septuaginta

II. Abreviaturas de livros

AThANT     Abhandlungen zur Theologie des Alten und Neuen Testamentes

BDR     Grammatik des ntl. Griechisch, Blass/Debrunner/Rehkopf

Bill     Kommentar zum Neuen Testament aus Talmud und Midrasch, H. L. Strack, P. Billerbeck

CE     Comentário Esperança

EKK     Evangelisch-katolisch Kommentar zum Neuen Testament

EWNT     Exegetisches Wörterbuch zum NT

HThK     Herders Theologischer Kommentar

KEK Kritisch-exegetischer Kommentar über das Neue Testament

KNT     Kommentar zum NT

LzB     Lexikon zur Bibel, organizado por Fritz Rienecker

NTD     Das Neue Testament Deutsch

RAC     Reallexikon für Antike und Christentum

ThWAT     Theologisches Wörterbuch zum Alten Testament

ThWNT     Theologisches Wörterbuch zum Neuen Testament

TRE     Theologisches Realenzykklopädie

WStB     Wuppertaler Studienbibel

WUNT     Wissenschaftliche Untersuchungen zum Neuen Testament

ZNW     Zeitschrift für neutestamentliche Wissenschaft

III. Abreviaturas das versões bíblicas usadas

O texto adotado neste comentário é a tradução de João Ferreira de Almeida, Revista e Atualizada no Brasil, 2ª ed. (ra), SBB, São Paulo, 1997. Quando se fez uso de outras versões, elas são assim identificadas:

rc     Almeida, Revista e Corrigida, 1998.

nvi     Nova Versão Internacional, 1994.

bj     Bíblia de Jerusalém, 1987.

blh     Bíblia na Linguagem de Hoje, 1998.

bv     Bíblia Viva, 1981.

vfl     Versão Fácil de Ler, 1999.

IV. Abreviaturas dos livros da Bíblia

Antigo Testamento

Gn     Gênesis

Êx     Êxodo

Lv     Levítico

Nm     Números

Dt     Deuteronômio

Js     Josué

Jz     Juízes

Rt     Rute

1Sm     1Samuel

2Sm     2Samuel

1Rs     1Reis

2Rs     2Reis

1Cr     1Crônicas

2Cr     2Crônicas

Ed     Esdras

Ne     Neemias

Et     Ester

Jó     Jó

Sl     Salmos

Pv     Provérbios

Ec     Eclesiastes

Ct     Cântico dos Cânticos

Is     Isaías

Jr     Jeremias

Lm     Lamentações de Jeremias

Ez     Ezequiel

Dn     Daniel

Os     Oséias

Jl     Joel

Am     Amós

Ob     Obadias

Jn     Jonas

Mq     Miquéias

Na     Naum

Hc     Habacuque

Sf     Sofonias

Ag     Ageu

Zc     Zacarias

Ml     Malaquias

Novo Testamento

Mt     Mateus

Mc     Marcos

Lc     Lucas

Jo     João

At     Atos

Rm     Romanos

1Co     1Coríntios

2Co     2Coríntios

Gl     Gálatas

Ef     Efésios

Fp     Filipenses

Cl     Colossenses

1Te     1Tessalonicenses

2Te     2Tessalonicenses

1Tm     1Timóteo

2Tm     2Timóteo

Tt     Tito

Fm     Filemom

Hb     Hebreus

Tg     Tiago

1Pe     1Pedro

2Pe     2Pedro

1Jo     1João

2Jo     2João

3Jo     3João

Jd     Judas

Ap     Apocalipse

PREFÁCIO DO AUTOR

Quem reside numa área rural e sai de casa à noite, no primeiro momento enxerga como num armário escuro. Somente aos poucos o olho se acostuma à escuridão, até que o jardim, as árvores, a rua, o céu e a terra se destacam com contornos nítidos. É assim que pode acontecer quando abordamos a carta aos Gálatas. No começo não conseguimos captar muito bem o que é que causa tanta celeuma. Parece que Paulo está lutando veementemente com o ar, ou seja, com uma pergunta que não significa nada para a vida da igreja de hoje: Acaso homens cristãos têm de se fazer circuncidar? No entanto, quem vai aprofundando sua convivência com esse escrito, percebe de modo crescente como nele se destaca uma verdade límpida. É a “verdade do evangelho”. Ela é exposta com uma coerência interna que interfere inevitavelmente também na miséria de nossas alienações e sincretismos.

Como naquele tempo, existem também hoje os “gálatas insensatos”. São cristãos nos quais Deus infundiu por meio de seu Espírito a exclamação, o grito de liberdade: “Senhor é Jesus!” Contudo, quando depois disso avultaram diante deles novamente elementos da era antiga, esses libertos de Deus esticaram seus pescoços e permitiram que lhes fosse imposto novamente o jugo. O nome desses elementos é legião, pois são numerosos. É uma porção de coisas e sistemas, normas e formas que morreram com a crucificação de Jesus, porém foram agora transformados em ponto de aferição do evangelho. As pessoas lhes servem de olhos radiantes, e querem que o Senhor Jesus ainda as ajude nisso. Contudo, quem transforma dessa maneira o Senhor dos senhores no segundo em importância, derruba-o do trono.

O desejo por trás deste comentário é que por meio desta parcela da Bíblia possamos vir a amar a Bíblia inteira e sua mensagem, e que possa raiar para nós a justiça de Cristo, a liberdade de Deus e a verdade do Espírito Santo.

Buckow (Alemanha), 1995

Adolf Pohl

QUESTÕES INTRODUTÓRIAS

Da parte de Paulo não temos nenhuma troca de correspondência, mas somente cartas dele, ou seja, apenas uma espécie de diálogos pela metade. Podemos ilustrar o significado deste fato por meio de uma conversa telefônica em que se escuta somente um dos participantes. Ouvimos o que nosso amigo fala ao fone, suas perguntas e reações, sua animação ou excitação. Apesar de já podermos tirar as nossas conclusões, perguntamos depois do telefonema: Quem era? Que queria? Apenas o esclarecimento de algumas circunstâncias na outra ponta da ligação tornam totalmente compreensíveis para nós as palavras que ouvimos nosso amigo dizer.

Cabe às assim chamadas “questões introdutórias”, que fazem parte de todo comentário, indagar pelas circunstâncias de uma carta existente. São perguntas como: quem a escreveu, quando e onde, e sobretudo a quem essa pessoa escreveu, por que e para quê? P. ex., quem era aquele que Paulo está atacando com tanta veemência? Que é que ele defendia? Oferecem-se de modo excelente, como recursos auxiliares, os escritos mais próximos no . Mas também as comparações exatas dos pontos de referência oferecidos pela própria carta permitem deduções. Como afirmamos, possuem peso singular as perguntas pelos destinatários ou adversários. São quase mais importantes que a pergunta pelo autor. Pois, no presente caso, o autor é conhecido há tempo por meio de muitas outras cartas e notícias.

1. Como se caracteriza o texto transmitido?

a. Extensão

A carta aos Gálatas pertence ao grupo das cartas mais breves de Paulo. Seus escritos aos Coríntios ou Romanos são duas a três vezes maiores. Apesar disso, comparada com cartas antigas, que na média nem sequer se equiparam à pequena Filemom, Gálatas tem uma extensão incomum. Portanto, o veículo “carta” foi alongado, talvez comparável a uma conversa telefônica excessivamente demorada. Por força de circunstâncias, Gl tinha de substituir uma visita que se fazia necessária: “Pudera eu estar presente, agora, convosco” (Gl 4.20).

b. Qualidade

Têm preferência os manuscritos gregos, porque o texto original, como em todos os escritos do nt, foi composto em grego. Constitui um manuscrito especialmente respeitável e muito precioso, um verdadeiro caso de sorte na transmissão, o Papiro 46, da época por volta do ano 200, que foi descoberto somente em 1930. Ao lado de outras cartas do nt ele também contém Gl, com apenas poucas lacunas. Alguns anos mais tarde apareceu o Papiro 51, do tempo em torno do ano 400, com alguns versículos de Gl 1. Após o ano 400 o pergaminho passou a impor-se de modo crescente como material para inscrição de textos. No concernente a Gl, possuímos cerca de 20 manuscritos de pergaminho dos séculos iv a ix (maiúsculos), dos quais1 dez merecem o predicado “qualidade especial”. Acrescenta-se um sem-número de manuscritos mais recentes (minúsculos), sem esquecer a plenitude de traduções latinas e em outras línguas, que também são valiosas. É óbvio que todos esses manuscritos denotam divergências entre si (variantes), mas nenhuma delas possui algum peso que afete o conteúdo. “No essencial, Gálatas foi transmitido incólume”.

2. Quem era o autor?

Com a primeira palavra de sua carta ele se denomina de “Paulo” e repete em Gl 5.2: “Eu, Paulo, vos digo”. Em todas as suas cartas ele faz uso desse cognome romano, que ele certamente possuía desde a infância3. É somente em At que somos informados de seu nome hebraico “Saul”. No nosso século praticamente silenciaram as dúvidas contra essa indicação de autoria. Gálatas é “o mais genuíno do genuíno que temos de Paulo”.

No entanto, a autoria de Paulo não significa que ele tenha escrito a carta de próprio punho. O encerramento da carta, escrito expressamente pelo próprio autor, em Gl 6.11-18, pressupõe, para a maior parte, a colaboração de um secretário, como era usual da Antigüidade5. Esse poderia ter sido um dos co-remetentes mencionados em Gl 1.2. Não é possível esclarecer em que medida essas pessoas eram co-responsáveis pelo formato final do escrito. A questão poderia ser mais complicada que nós atualmente presumimos6. Contudo, pelo fato de sempre de novo lermos: “Faço-vos”; “Irmãos, falo como homem”; “Digo”; “Sede qual eu sou”; “dou testemunho”; “Dizei-me”; “escrevi de meu próprio punho” (Gl 1.11; 3.15; 4.1,12,15,21; 5.16; 6.11), não se pode pôr em dúvida o papel decisivo do apóstolo.

3. Quem eram os destinatários?

a. Uma federação de igrejas

De acordo com Gl 1.2 a carta é dirigida “às igrejas da Galácia”. O plural “igrejas” permite pensar em no mínimo dois, e preferencialmente em três ou mais grupos de cristãos. Deste modo o escrito representa uma espécie de carta circular que fazia o rodízio nas reuniões cristãs de uma região, sendo lida em público. O costume de ler abertamente cartas do apóstolo é mencionado em 1Ts 5.27: “Conjuro-vos, pelo Senhor, que esta epístola seja lida a todos os irmãos” (o que naquele tempo incluía as mulheres). Em Ap 1.3 é referido um preletor. Cl 4.16 comprova o intercâmbio de cartas entre igrejas vizinhas.

É evidente que as igrejas às quais se dirige a carta estavam estreitamente ligadas entre si. Neste sentido é que falamos de uma federação de igrejas. Elas tinham tanto em comum que para todas elas servia a mesma carta. Neste aspecto elas se distinguiam, o âmbito de Ap. Daquelas “missivas” também se depreendem nitidamente as respectivas situações e constituições diversas. Na Galácia isso era diferente. Para essa região Paulo podia escrever a todas conjuntamente frases como, p. ex., Gl 4.13-15, ou seja, podia evocar lembranças concretas, comuns, referentes à sua primeira visita. Além disso, tinham em comum que entrementes atuavam entre elas missionários de “outro evangelho” e, por fim, também a mesma abaladora vulnerabilidade diante do mesmo (Gl 1.6; 3.1). Este sincronismo da experiência impele-nos a pensar num espaço comum de vida supervisionável. Talvez se tratasse de igrejas domiciliares de uma única cidade que se originaram de uma primeira igreja domiciliar7. Também em Jerusalém havia todo um círculo de igrejas domiciliares (At 2.46), e talvez de modo similar em Corinto (1Co 1.16; 16.15).

Por fim, depõe em favor de uma missão urbana dessas o fato de que Paulo escrevia em grego e demandava claros esforços intelectuais. Nas regiões rurais da Galácia ainda se manteve por muito tempo a língua celta. Portanto, Paulo pressupunha leitores cultos, urbanos, talvez como os da capital da província, Ancyra, hoje Ancara, a capital da Turquia.

b. A Galácia

Exposição do problema

“Ó gálatas insensatos!” exclama Paulo em Gl 3.1. O termo grego galatai é a forma mais recente de keltai (celtas) e significa em latim galli, a saber, gauleses. Estranhamos. Estaria Paulo escrevendo para a Gália, ou seja, para a França? Em vista de que em 2Tm 4.10 ele informa: “Crescente foi para a Galácia”, de fato não foram poucos os copistas que mudaram para “Gália”. Considerando, porém, que Paulo no presente caso escreveu a igrejas fundadas por ele próprio, entra em cogitação somente a Galácia na Ásia Menor, pois na França ele nunca foi missionário.

Em que região da Ásia Menor situamos a Galácia? A pergunta não é tão fácil de responder quanto inicialmente possa parecer. Pois ali existiam duas constelações com esse nome, que se sobrepõem apenas parcialmente em termos físicos, a saber, uma área menor como região e uma maior como província. Em decorrência, há também duas respostas. Para elucidar a questão é necessário certo aprofundamento.

Por causa de seu espírito de conquista, os gálatas da Ásia Menor nunca se restringiram a seu verdadeiro território de colonização no interior da atual Turquia. Já quando em 25 a.C. essa região se tornou província romana, faziam parte dela áreas adjacentes a oeste e leste. Também depois disso as fronteiras eram flutuantes. Nos seus melhores tempos, a província se dilatava em boa extensão para o Sul. Contudo, essa expansão não significava que houvesse gálatas em toda parte ou que os gálatas se fundissem numa unidade com as etnias incorporadas. Essa realidade reflete-se, p. ex., no fato de que no uso da administração oficial a província não se chamava de Galácia, mas tinha um nome composto de várias designações geográficas. Somente acontecia às vezes que alguns escritores, em virtude da brevidade, a chamavam de “Galácia” (como provavelmente também em 1Pe 1.1). No linguajar diário, porém, o nome “Galácia” limitava-se à região ancestral dos gálatas em redor de Ancyra. Essa situação é importante para a pergunta pelos destinatários da carta.

Propostas de solução

Até a metade do século passado, o nome “Galácia” era naturalmente relacionado com a região ao norte da capital provincial Ancyra, e também hoje a maioria dos pesquisadores, sobretudo no âmbito da língua alemã, defende esta solução (hipótese galática setentrional ou hipótese regional). Porém, graças à florescente ciência histórica, descobriu-se há mais de cem anos a possibilidade de se relacionar o nome com a província (hipótese galática meridional ou hipótese provincial [cf. “Atlas Vida Nova” la, Paulo teria dirigido sua carta também (ou somente) àquelas quatro igrejas que ele fundou em sua primeira viagem missionária, a saber, em Antioquia da Pisídia e em Icônio da Licaônia, em Listra e Derbe (At 13.13–14.25 [cf. “Atlas Vida Nova” pág 68]).

Ao longo dos anos, ambos os pontos de vista foram fundamentados com esmero. Por mais impressionantes que sejam os argumentos de ambos os lados – não podemos reproduzi-los todos aqui, nem sua discussão – eles não levam a resultados imperiosos. Ainda que no calor do debate alguém diga que a opinião contrária é “impossível”, qualquer decisão numa ou noutra direção traz em si algo de penoso. Posso arrolar aqui tão somente os três pontos principais que me levaram a permanecer com a interpretação antiga, da hipótese galática setentrional.

Em primeiro lugar pesa a circunstância de que Gl pressupõe aquela ampla sintonia das comunidades destinatárias (cf. item 3a: “Uma federação de igrejas”). Ela se referia de forma muito concreta ao seu surgimento, depois à sua grave perturbação por agitação de fora e seu estado periclitante no tempo da confecção da carta. Exatamente esta situação, porém, é difícil de afirmar com respeito às quatro igrejas ao Sul da província. Acaso Paulo se apresentou em todas as quatro localidades como missionário enfermo e elas o acolheram quatro vezes como um anjo, fato que Paulo ainda evoca em Gl 4.13,14? E como as passagens de Gl 4.15; cf. 3.4,5 (), segundo as quais os tempos iniciais foram marcados por bem-aventuranças e extraordinárias experiências espirituais, combinam com os começos nas quatro cidades do Sul? Conforme At 13.45,50; 14.2,19; 2Tm 3.11 eclodiram ali desde o início lutas ferrenhas e perseguições. Finalmente, essas quatro comunidades também eram separadas por consideráveis distâncias geográficas. De Antioquia até Derbe percorrem-se, de acordo com o traçado das estradas atuais, no mínimo 286 (Jewett, pág 104). Na Antigüidade costumava-se andar por dia apenas em torno de 24-32 km (pág 102), de maneira que as quatro cidades estavam afastadas entre si por jornadas de vários dias. Dessa maneira não resulta o quadro de uma aliança coesa de igrejas, a qual Gl pressupõe.

Em segundo lugar, há uma pedra de tropeço para a teoria galática meridional, uma pedra que seus defensores nunca conseguiram afastar a contento. Trata-se da exclamação de Paulo em Gl 3.1: “Ó gálatas insensatos!” É possível que para as cidades sulistas de Antioquia, Icônio, Listra e Derbe também se tenham mudado alguns gálatas, mas em primeiro lugar moravam ali os nativos pisídios e licaônios. Além do mais, as cidades, com exceção de Derbe, eram cidades romanas, em que Roma há muito havia assentado funcionários e soldados romanos. Finalmente, também mercadores judaicos haviam alcançado essas importantes praças comerciais, construindo ali, como os textos permitem depreender, influentes comunidades sinagogais. Seria possível que Paulo apostrofasse todos eles de maneira tão drástica com “gálatas!”?

Uma terceira ponderação torna difícil de se conceber como destinatárias de Gl as quatro igrejas do Sul (Antioquia, Icônio, Listra e Derbe), que Paulo fundou na primeira viagem missionária. A respeito das igrejas de Antioquia e Icônio sabemos que surgiram no seio das comunidades sinagogais de lá (At 13.14; 14.1). Em decorrência, eram constituídas em forte medida por judeus e prosélitos convertidos à fé cristã. Isto significa que esses fiéis tiveram de dar os seus primeiríssimos passos na fé em confronto com o judaísmo. Porém, podiam vencer essa prova ainda na presença e com o apoio do apóstolo. Dificilmente uma propaganda judaísta e a exigência da circuncisão poderia tê-los confundido a tal ponto como, inversamente, as igrejas galáticas ao Norte (Gl 1.7). Ao que parece essas surgiram de modo atípico, a saber, fora da sinagoga, e eram compostas por pessoas de origem puramente gentílica (cf. abaixo, 4a: “A confusão nas igrejas”). Ainda não dispunham da refutação dos argumentos judaicos. Não haviam sido desenvolvidas nelas as necessárias forças de defesa. Despreparadas e na ausência de seu fundador, caíram nas mãos dos hábeis professores judaicos.

Questões de fundo da pergunta

Por conseguinte, a decisão em favor da hipótese galática setentrional funda-se sobre o texto da própria Gl. Se tivéssemos somente essa carta, dificilmente teria havido um motivo para a hipótese galática meridional. Esse motivo, porém, parece ser dado pela existência de At. De acordo com At, Paulo pode ter missionado os verdadeiros gálatas ao norte apenas depois da grande reunião dos apóstolos de At 15, ou seja, em sua segunda viagem. Antes ele ainda não teria penetrado nessa região. Apenas em At 16.6 lemos: “viajaram pela região da Frígia e da Galácia” (), embora sem a menção de uma atividade missionária. Contudo caberia nesse ponto aquilo a que Paulo parece aludir em sua carta em Gl 4.13: Por causa de uma enfermidade ele não pôde seguir viagem, e dessa interrupção involuntária originou-se a pregação do evangelho. No versículo citado ele menciona ao mesmo tempo que se tratava de sua primeira visita. Logo, ele deve ter comparecido ali depois disso uma segunda vez, e ainda antes da redação da carta. Este poderia ser o dado referido em At 18.23, em que começa o relato sobre a terceira viagem: “Depois de passar algum tempo em Antioquia, Paulo partiu dali e viajou por toda a região da Galácia e da Frígia, fortalecendo todos os discípulos” (nvi). Portanto também At nos informa, ainda que posteriormente, que antes dessa terceira viagem missionária havia acontecido a fundação de igrejas na Galácia.
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